Violência política contra mulheres negras na internet opera para silenciar vozes dissonantes

Dados do Instituto Marielle Franco revelam que 78% das mulheres negras candidatas nas eleições municipais de 2020 sofreram violência virtual

Por Júlia Cruz

O número de candidatas negras que disputaram uma vaga para a Câmara Municipal nas eleições em São Paulo quase dobrou em 2020 com relação aos números de 2016. Da esquerda à direita, o crescimento expressivo de novas candidaturas contabilizou mais 118 neste ano, totalizando 250. Mesmo sendo mais da metade da população brasileira (52%), as mulheres não representam nem um terço das cadeiras políticas. Elas são apenas 15% dos deputados e 20% do total de vereadores em São Paulo, segundo dados da Câmara dos Deputados e da Câmara Municipal. Esse marco de novas candidaturas, em especial no contexto de mulheres negras na capital do estado e o município mais populoso, representa um avanço significativo do ponto de vista da pluralidade de vozes e do avanço de pautas de defesa dos direitos das mulheres na sua diversidade — incluindo aquele mais elementar: o direito a uma vida livre de violência.

Marcada pela ascensão de novas candidaturas de mulheres negras, as eleições municipais destacam, porém, um avanço da violência política no ambiente da internet, sobretudo no cenário de pandemia de Covid-19, onde esse espaço foi usado por candidatas de forma mais intensa para dialogar sobre suas ideias e propostas. Gerada na maioria das vezes por grupos e reações conservadoras que buscam limitar a participação de mulheres nos espaços de poder e de tomadas de decisão, a violência política na internet se dá através de ataques, ofensas, ameaças, desinformação, discurso de ódio e invasão de perfis e reuniões. 

Para a antropóloga e coordenadora da área de desigualdades e identidades do InternetLab, Fernanda K. Martins, quando pensamos sobre violência, temos uma tendência a concebê-la como uma exceção às regras sociais. Na verdade, indica a especialista, a violência compõe a sociedade, dizendo muito sobre a forma como nos estruturamos e como hierarquizamos socialmente diferentes grupos sociais. “Nós podemos pensar que a violência política na internet é uma atualização do que acontece também fora da internet. O que acontece online, não está situado de forma isolada. Há uma conexão entre o que se dá na internet e o que acontece fora dela”, explica.

Segundo dados do relatório preliminar “Violência Política Contra Mulheres Negras”, do Instituto Marielle Franco, a violência virtual foi a principal violência relatada pela maioria das mulheres negras candidatas que responderam a pesquisa, totalizando 78%. Desse total,  20,72% recebeu comentários e/ou mensagens machistas e/ou misóginas em suas redes sociais, por e-mail ou aplicativos de mensagens, 18% recebeu comentários e/ou mensagens racistas em suas redes sociais, por e-mail ou aplicativos de mensagens, 17% participou de uma reunião virtual que foi invadida, 13% teve a sua reunião virtual de campanha invadida, 10% foi vítima de ataques com conteúdos machistas durante uma live e 8% foi vítima de conteúdos racistas durante uma live. Com relação aos seus agressores, 46% são indivíduos ou grupos não identificados. 

Fernanda pontua ainda que “Serão as pessoas negras, mulheres, LGBTQI+, pessoas oriundas de classes populares e de movimentos sociais que serão um alvo mais recorrente desse tipo de violência. Demonstrando, então, que a violência política tem um direcionamento bastante específico e busca sustentar hierarquizações também bastante específicas no que diz respeito ao modo como nossa sociedade se estrutura”, afirma.

Erika Hilton (PSOL/SP), eleita a primeira mulher trans negra em São Paulo e a 6ª candidata com o maior número de votos, revela que sofre ameaças, ataques, ofensas e desinformação há muito tempo e que essa prática se intensificou durante a campanha devido à ampla tentativa de grupos polarizados em promover o boicote e o silenciamento das mulheres, da negritude e da comunidade LGBTQIA+ na política institucional. 

Foto/Rafa Canoba

“Esses grupos tentam paralisar pelo medo, pela mentira e pelo pânico moral. Foi assim nas eleições de 2018 com Jair Bolsonaro e vai ser assim por um bom tempo pelo simples fato de sermos um corpo político”, afirma. Para ela, tentar judicializar um crime de ódio ou um ataque virtual é um processo muito difícil pelo fato da justiça não ser acessível. “O ambiente virtual é uma boa opção de debate sem o risco da violência física, mas entenda, é um opção sem risco de violência física naquele momento e circunstância, o que não quer dizer que não pode acontecer na vida real”, completa Erika lembrando o caso de uma mulher trans vítima de crime de LGBTfobia enquanto panfletava para a sua campanha na Avenida Paulista, em São Paulo. 

Erika Hilton foi uma das candidatas acompanhada pelo projeto MonitorA da revista AzMina em parceria com o Instituto Update e InternetLab, que coleta e analisa comentários direcionados a candidatas de todos os espectros políticos, para compreender as dinâmicas da violência política de gênero e do discurso de ódio sexista contra as mulheres. 

A jornalista e coordenadora do MonitorA, Bárbara Libório, ressalta que o conhecimento empírico mostra que mulheres candidatas são atacadas na internet em grande parte das vezes não por atributos políticos, mas sim por atributos físicos — xingamentos que são racistas, transfóbicos, machistas e misóginos. Para captar esse aspecto, é preciso aplicar um filtro linguístico que analisa cada uma das menções direcionadas às candidatas para entender como é que funciona a dinâmica da violência política nas redes. “Conseguimos através desse monitoramento o que não conseguiríamos fazer de maneira tão extensa com relação aos casos que acontecem na vida real. Acredito que a força de projetos como o MonitorA é criar dados que embasam políticas públicas e políticas internas de plataformas de redes sociais e que realmente mostre o que acontece nesse ambiente, principalmente nos períodos de campanha eleitoral”, disse. 

Internet e violência política

Apesar de fomentar discursos e narrativas violentas contra as mulheres negras e outros grupos sociais, o ambiente virtual é uma importante ferramenta para a compreensão das especificidades atribuídas à violência política e caminhos de enfrentamento desse cenário,  assim como para cobrar daqueles que ocupam cargos públicos e das grandes plataformas que sejam resguardados os direitos de todas. 

Fernanda explica que, diante de governos que não priorizam politicamente os direitos humanos e que não os têm como uma pauta que compõe os seus atos e discursos, uma parte da sociedade pode sentir que seus pensamentos mais conservadores estão legitimados por aqueles que ocupam os cargos públicos, o que significaria também termos uma parcela da população, historicamente minorizada politicamente, que não enxerga em um governo autoritário a sua existência válida enquanto legítima. “Parte do que podemos observar como práticas violentas em espaços online podem sim estar relacionados com uma dinâmica social de ascensão do conservadorismo e com disputas políticas do que é ou não é legítimo de ser pautado e de ser vivido socialmente. Novamente, o que acontece na internet é também um desdobramento do que acontece em outras esferas, há uma conexão e continuidade entre um campo e outro quase inquebráveis”, completa. 

Antes de ser eleita vereadora, Erika Hilton mencionou que pretende discutir não só os caminhos para o fim da violência política na internet sofrida por candidaturas negras, mas também por candidaturas trans, por candidaturas de mulheres e outras. “É a partir de um processo educacional e pedagógico que podemos caminhar para limar a violência e reeducar a sociedade para que nos enxerguem de uma outra forma. No meu mandato vamos buscar medidas paliativas, políticas públicas e projetos de lei que minimizem a longo prazo todas essas violências contra grupos minoritários, e digo, não minoritários em números, mas minoritários em representação, minoritários em disputas de espaços de poder”, disse. 

“É nesse momento que avançamos que o fascismo, a intolerância, o ódio e o preconceito avançam também. É por isso que precisamos utilizar a máquina pública para minimizar os danos da violência política e estigma que se instaurou a partir da via institucional: é dela que vamos hackear para desmistificar o ódio e transformar a sociedade em uma sociedade possível para todes”, completou. 

Foto/Reprodução Instagram

Conheça 

MonitorA é projeto da AzMina em parceria com o Instituto Update e InternetLab que coleta e analisa o discurso de ódio contra candidatas nas eleições de 2020. 

Escuta Candidata é uma iniciativa que oferece espaços de escuta e acolhimento para as mulheres que estão se candidatando às eleições em todo o Brasil, por meio de atendimentos online. A equipe é toda formada por mulheres e os atendimentos serão totalmente gratuitos para as candidaturas às eleições 2020, durante e após a campanha! Todas as trabalhadoras da política serão bem-vindas, mas a prioridade é acolher mulheres negras e LBTI+. 

TretaAqui! é uma plataforma que coleta denúncias de candidaturas atacando e sendo atacadas com discurso de ódio e desinformação. Em 2018 as denúncias foram encaminhadas à Organização dos Estados Americanos, uma organização internacional, da qual o Brasil faz parte, e que estava acompanhando de perto as eleições. A articulação é fruto da união de entidades da sociedade civil brasileira que trabalham com temas de representatividade política de mulheres, pessoas negras, LGBT+, participação cidadã e direitos humanos nos meios digitais. 

Este post tem um comentário

  1. Deni

    Que trabalho lindo! Parabéns Júlia

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