Por Marília Nascimento*
Há pouco mais de quatro décadas, o Brasil começava a reconstruir sua democracia depois de mais de 20 anos de ditadura. A Constituição Federal de 1988 tornou-se um marco fundamental desse processo, resultado de disputas, mobilizações e da atuação de diferentes sujeitos políticos que reivindicavam direitos e novas formas de participação na vida pública. A democracia brasileira é, portanto, uma conquista, mas também uma construção inacabada, atravessada pelas desigualdades e pelas disputas em torno de quem pode participar, decidir e produzir os sentidos da vida coletiva.
Para as pessoas negras, sobretudo para as mulheres negras, a democracia que conquistamos ainda está distante daquela que precisamos e desejamos construir. Não porque o direito ao voto ou as garantias constitucionais sejam pouco importantes, mas porque direitos formais não significam, necessariamente, condições reais de participação e decisão. As desigualdades continuam definindo quem acessa os espaços de poder, quem tem sua voz legitimada e quem permanece como destinatário das decisões tomadas por outros. Representando aproximadamente 28% da população brasileira — o equivalente a mais de 60 milhões de pessoas —, as mulheres negras (pretas e pardas) constituem o maior grupo demográfico do país. No entanto, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), elas lideram os índices de vulnerabilidade social: apresentam as maiores taxas de desemprego, a menor média salarial e chefiam mais de 60% dos domicílios que enfrentam algum grau de insegurança alimentar.
É nesse contexto que precisamos retirar a democracia do campo abstrato e compreendê-la também a partir da vida concreta. Moradia, trabalho, cuidado, educação, saúde, segurança, território e o direito de viver sem violência não são questões apartadas da democracia. Quando necessidades vividas individualmente se transformam em demandas coletivas e passam a produzir direitos e políticas públicas, a democracia deixa de ser apenas um princípio e ganha existência na vida cotidiana.
O voto é parte importante desse processo, mas não o encerra. A participação política continua no acompanhamento dos mandatos, na fiscalização do orçamento, na organização comunitária, na disputa das políticas públicas e nas diferentes formas de ação coletiva. Uma comunidade que reivindica saneamento ou iluminação, mulheres que exigem políticas de enfrentamento à violência, jovens que ocupam espaços de decisão, movimentos que disputam políticas públicas ou uma população quilombola que defende seu território estão produzindo política. Também fazem isso as mulheres negras que, a partir de suas experiências, produzem conhecimento, organizam ações e levam questões antes tratadas como privadas para o debate público.
Essa presença não é recente. Ao longo da história, mulheres negras estiveram na organização das comunidades, na criação de redes de solidariedade, na defesa dos territórios e no enfrentamento à violência. O que muitas vezes esteve ausente foi o reconhecimento dessas práticas como formas legítimas de ação política. No Nordeste, essa trajetória se articula a uma longa tradição de organização popular, produção de conhecimento e disputa de projetos de sociedade. A região, portanto, não pode ser compreendida apenas por seu peso eleitoral, mas também pelas experiências políticas que se constroem em seus territórios.
Essa dimensão se torna ainda mais evidente diante das desigualdades que atravessam a vida das mulheres negras nordestinas. De acordo com o Atlas da Violência de 2026, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Nordeste registra índices alarmantes de letalidade violenta contra mulheres negras, que representam mais de 80% das vítimas de homicídios femininos na região. Segundo o IBGE, as trabalhadoras nordestinas dedicam, em média, mais de 22 horas semanais ao trabalho doméstico e de cuidados não remunerado. São condições que ajudam a compreender por que renda, fome, cuidado, saúde, educação, violência, moradia e território não podem ser tratados como temas isolados. Eles expressam dimensões articuladas da desigualdade e das condições de vida.
É também por isso que ampliar a presença das mulheres negras nos espaços institucionais é fundamental. Sua entrada nos parlamentos e governos ajuda a enfrentar uma estrutura de poder historicamente branca, masculina e elitizada. Os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram, no entanto, o tamanho dessa desigualdade: embora sejam quase um terço da população brasileira, as mulheres negras ocupam menos de 7% das cadeiras na Câmara dos Deputados e têm participação ainda menor nas prefeituras e governos estaduais. Mas ocupar esses espaços, por si só, não basta. A disputa também está nas prioridades, nos recursos e nas decisões que orientam a política. Queremos estar nesses lugares com autonomia e capacidade de transformar o que é decidido a partir deles. Ocupação institucional, portanto, não significa apenas conquistar um lugar dentro das estruturas existentes. Significa também disputar o que é feito a partir desses lugares, quais políticas são formuladas, quais recursos são destinados e quais relações de poder são mantidas ou transformadas. A questão não é somente quem chega, mas o que se torna possível quando essas mulheres chegam.
É nesse debate que o Bem Viver ganha força como horizonte político. A Marcha das Mulheres Negras de 2015 contribuiu para inscrever essa perspectiva no debate político nacional, articulando-a à reparação, à justiça racial, à redistribuição de poder, à democracia radical, ao território e à dignidade coletiva. Mais do que denunciar desigualdades, trata-se de afirmar outro projeto político e civilizatório. Pensar o Bem Viver exige perguntar que escolhas fazemos sobre a vida coletiva: se uma política pública amplia a autonomia ou reforça dependências; se redistribui poder ou mantém sua concentração; se protege a vida ou aprofunda a precarização; se fortalece os territórios ou reproduz seu abandono. O orçamento, o cuidado e as decisões sobre os territórios também expressam projetos de sociedade.
Disputar a democracia é, nesse sentido, disputar também os imaginários sobre o futuro. Durante muito tempo, a política parece ter oferecido apenas duas possibilidades: conservar o mundo como está ou impedir que ele retroceda. Para as mulheres negras, é preciso ampliar esse horizonte e formular aquilo que queremos construir. Isso passa também por questionar quem historicamente foi reconhecido como autorizado a interpretar o país e definir os destinos da coletividade. Homens brancos, urbanos e, preferencialmente, sudestinos ocuparam esse lugar de autoridade. Mulheres negras rompem com essa lógica não apenas quando chegam aos espaços de decisão, mas também quando produzem conhecimento, elaboram políticas e constroem outras narrativas sobre o país.
Quando uma menina negra consegue imaginar uma mulher negra como prefeita, governadora, deputada, senadora ou presidenta, amplia-se também o campo do que ela pode imaginar para si. A representação produz reconhecimento, mas não basta. É preciso transformar as condições que definem quem pode chegar ao poder e, sobretudo, o que se faz com ele. Isso significa rever prioridades, políticas públicas, orçamentos e formas de participação; compreender o cuidado como responsabilidade coletiva; defender o direito ao território como parte do direito à vida; construir políticas de segurança que não tenham no controle e na violência sobre determinados corpos seu fundamento; e reconhecer que desenvolvimento não pode significar destruição.
Também não partimos do zero. Organizações comunitárias, movimentos sociais, experiências culturais e redes de cuidado já produzem outras formas de relação, conhecimento e vida coletiva. Essas experiências não devem ser vistas apenas como respostas à precariedade, mas como práticas que formulam alternativas e apontam para outros modos de organizar a sociedade. O futuro, nesse sentido, não é algo que começa amanhã. Ele já está sendo construído em diferentes territórios.
É por isso que, diante das eleições, a pergunta não pode se limitar a “em quem vamos votar?” O voto é fundamental, mas precisamos também perguntar que democracia queremos construir, quem participa das decisões e quais projetos queremos colocar em movimento. A participação política não termina na urna. Ela se expressa no acompanhamento dos mandatos, na fiscalização, na organização coletiva, na disputa de narrativas e na presença nos espaços onde as decisões são tomadas.
Pensar a democracia a partir das mulheres negras é, portanto, ampliar o próprio significado da política. É reconhecer que disputar poder não significa apenas ocupar cargos, mas transformar as condições que definem quem pode decidir, quais vidas são protegidas e quais projetos de sociedade ganham espaço. Por isso, querer se ver no poder é também querer se ver no futuro. Não em qualquer futuro, mas em um que rompa com a lógica que historicamente define quais vidas importam, quais conhecimentos são reconhecidos e quem pode decidir sobre aquilo que é comum.
O desafio das mulheres negras nordestinas na política não é apenas ocupar o presente. É participar da construção de um futuro orientado pelo Bem Viver, pela justiça racial, pela dignidade e pelo direito de todas as pessoas a uma vida plena. Um futuro que não seja apenas imaginado por nós, mas construído por nós.

*Doutora em Sociologia, pesquisadora, articuladora política e gestora de projetos. É cofundadora do Observatório Feminista do Nordeste, onde atua na pesquisa, formação e incidência política, com foco em democracia, participação política, direitos das mulheres e desigualdades sociais.
Este artigo integra a 4ª edição da campanha Quero Me Ver no Poder, iniciativa da Plataforma dos Movimentos Sociais por Outro Sistema Político com apoio do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC), construída em parceria técnica e política com a Revista Afirmativa.