Sobre igrejas no contexto da pandemia

por Pa. Romi Márcia Bencke, originalmente publicado no Le Monde Diplomatique Brasil

Falar sobre o papel das igrejas no contexto da pandemia, necessariamente, exige que se fale sobre os impactos da crise no cotidiano delas. Desde o início do isolamento social, muitas igrejas tiveram que repensar a forma de realizar as celebrações, os rituais, os estudos bíblicos e o acompanhamento às famílias enlutadas, em especial, pela Covid-19.

Mesmo que as igrejas que têm forte repercussão nas mídias estejam acostumadas com celebrações online, para o conjunto das igrejas essa não é a realidade cotidiana. Para a maioria, viver a experiência da fé significa reunir-se em comunidade, conversar, celebrar. Sacramentos como o Batismo e a Santa Ceia (Eucaristia) para algumas tradições são praticamente impossíveis de serem realizados sem a presença da comunidade. Portanto, a epidemia desafia igrejas a repensar seus ritos, sua liturgia e sua presença na sociedade. Uma das questões exaustivamente repetidas é se é possível ser igreja online. Como conciliar, no pós-pandemia, as atividades presenciais e as atividades online? 

Karl Fredrickson/Unsplash

É interessante chamar a atenção que igrejas do campo ecumênico, desde o mês de março quando iniciou o isolamento social, não têm se reunido presencialmente. Foram necessárias inúmeras adaptações como, por exemplo, a capacitação rápida de padres, religiosos e religiosas, pastores e pastoras e reverendos e reverendas para a realização de celebrações online e para aprender a editar os vídeos, utilizar plataformas virtuais para a realização dos inúmeros encontros, como estudos bíblicos, grupos de juventudes, mulheres, entre outros.

No âmbito das pastorais sociais, acostumadas a encontros presenciais sempre bastante animados, a realidade tem sido a mesma. O exercício de reproduzir tais encontros nas redes e plataformas é diário. Em muitas dessas atividades reserva-se, inclusive, o intervalo para o café, considerando que a mesa partilhada é uma característica dos encontros presenciais. Todas são formas novas de convívio e encontro. São desafios para manter vivas a afetividade, o diálogo, o convívio e a espiritualidade. 

Uma experiência marcante foi a Semana de Pentecostes, quando é celebrada a Semana de Oração pela Unidade Cristã (SOUC), coordenada em nível nacional pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic). A Semana aconteceu no período de 24 a 31 de maio. No início de abril foram avaliadas as possibilidades de não a realizar por causa da inviabilidade das celebrações presenciais. Dias mais tarde, reavaliou-se e se decidiu adiar a realização da Semana para novembro. Por fim, a decisão foi realizá-la online. Para nossa surpresa, a adesão foi muito representativa. Alcançamos pessoas e grupos que nunca haviam se envolvido com a Semana de Oração. 

Outras atividades têm sido adaptadas para essa nova realidade. Uma delas, talvez a mais difícil, é o acompanhamento às famílias enlutadas e a realização de celebrações de sepultamento. A celebração religiosa de sepultamento é importante para as pessoas que praticam alguma religião. Contar com a presença do padre, do pastor, da pastora, do reverendo e da reverenda, e ouvir palavras de consolo, é importante para o processo do luto. No entanto, a pandemia de Covid-19 impõe restrições para a realização dos velórios, que precisam ser rápidos e com presença restrita. Além disso, há a postura por parte do governo em tripudiar as mortes provocadas pela pandemia. Nesse sentido, o lidar com a morte talvez seja um dos desafios mais complexos neste momento, tanto em função da negação em relação à gravidade da pandemia, quanto em relação à negação do papel da ciência e de discursos religiosos que associam a pandemia a castigo de Deus. Em um contexto de predomínio do fundamentalismo religioso o impacto produzido pela morte vai além da perda de uma pessoa querida. A morte representa também tirar as vendas dos olhos em relação a uma realidade permanentemente negada por alguns setores das igrejas.

Tive fome e me deste de comer

Se as celebrações, encontros e sepultamentos foram impactados, não menos importantes foram as consequências nos serviços diaconais realizados pelas igrejas e organizações confessionais. Compreende-se por serviços diaconais todas as ações sociais realizadas pelas igrejas e pastorais. A diaconia implica em serviços sociais, em atendimento em ações de emergência, como em enchentes, incêndios e nas consequências provocadas por crimes ambientais como Mariana e Brumadinho. A diaconia também implica ações de incidência. No caso brasileiro, estas estão bastante relacionadas a processos de redução das desigualdades econômicas, apoio aos direitos humanos e compromissos com causas como a indígena, a socioambiental, justiça de gênero, entre outras. 

Algumas ações diaconais realizadas por igrejas merecem destaque. Na cidade de Ariquemes (RO), a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil atende mulheres em situação de violência doméstica. O trabalho é realizado pelo Projeto Casa Noeli, que acolhe as mulheres juntamente com seus filhos e filhas. Para garantir que não sejam infectadas pela Covid-19, todas as que buscam ajuda ficam em observação, o que demandou a adaptação dos espaços da Casa. Todas as mulheres receberam e devem usar os equipamentos de proteção individual (EPIs). A precarização das políticas voltadas para o atendimento de mulheres em situação de violência deixou mais complexo esse trabalho; para complicar, ainda há a questão de que muitos órgãos públicos estão com o atendimento reduzido. 

Outra ação diaconal que merece ser destacada são os Fundos de Pequenos Projetos da Fundação Luterana de Diaconia (FLD) e da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese) que tiveram as demandas duplicadas em semanas. A maioria dos projetos eram de pequenas organizações, em especial indígenas, de mulheres, pessoas em situação de rua e quilombolas que precisavam de apoio para a aquisição de alimentos e EPIs. 

No âmbito da igreja Católica Apostólica Romana destacam-se as ações desenvolvidas pela Cáritas Brasileira e a organização alemã Adveniat, que doaram 10 mil cestas básicas e produtos de higiene nos estados de Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. 

As ações diaconais são organizadas e planejadas de um ano para o outro. Em um país desigual como o Brasil, é necessário definir prioridades e identificar setores mais vulneráveis. A irrupção da pandemia desestruturou todo o planejamento realizado, em função das demandas urgentes que apareceram relacionadas diretamente com a sobrevivência das pessoas economicamente vulneráveis. Se, por um lado, a diaconia historicamente procurou reforçar o papel do Estado e das políticas públicas para a diminuição das desigualdades, o dilema que se apresenta agora é o risco de uma ação assistencialista que deixa de problematizar as causas estruturais da desigualdade. Portanto, a pandemia impacta também no trabalho diaconal.

Ainda no contexto da pandemia, igrejas do campo ecumênico têm apoiado ações importantes da sociedade civil, com destaque para a Renda Básica Emergencial e a Taxação Sobre Grandes Fortunas. Organizações confessionais e ecumênicas estão inseridas em campanhas nacionais como “Brasil pela Democracia” e campanhas como as realizadas pela Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político junto ao TSE, que pede que o Tribunal julgue as ações movidas durante as eleições de 2018 sobre possíveis ilegalidades cometidas pela chapa Bolsonaro-Mourão.

Igrejas como atividade essencial? Será que a Fé imuniza?

Em uma realidade marcada pelo fundamentalismo religioso, não se pode deixar de falar das pressões realizadas por setores de igrejas para que as atividades presenciais não fossem canceladas. Tais pressões exigiam que igrejas fossem classificadas como organizações de “atividade essencial”. Esse tema foi um dos que polarizou debates internos em diferentes igrejas. 

Da mesma forma, foram necessárias várias campanhas chamando a atenção para a importância da Ciência, da importância de seguir as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), em relação aos cuidados individuais e comunitários imprescindíveis para evitar a proliferação do vírus. 

Uma discussão forte foi sobre o sentido da eclesialidade. Isso significa recuperar que viver igreja não significa estar no templo, mas que é possível orar e praticar a espiritualidade em casa.

Narrativas e contra-narrativas religiosas relacionadas ao coronavírus foram inúmeras. Muitas lideranças religiosas associaram a pandemia a um castigo de Deus. Outras vincularam à segunda vinda de Cristo. Outras, ainda, fortaleceram o discurso de defesa de medicamentos não cientificamente comprovados para o tratamento das pessoas infectadas.

A pandemia escancarou que o fundamentalismo religioso tem consequências diretas e visíveis na vida das pessoas. Isso provoca que igrejas reflitam sobre a necessidade urgente da formação de lideranças leigas e também de seus quadros pastorais. Qual o papel da fé em cenários incertos e complexos como este é uma das perguntas lançadas pelo contexto da pandemia. A fé pode ser importante para provocar discernimentos, mas quando manipulada para fortalecer obscurantismos, pode provocar sofrimento.

Romi Márcia Bencke é pastora e secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic).


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