Nossa América

Durante anos exportaram ideias. Pareciam titulares de toda a verdade. As correntes políticas ou os estudos jurídicos só tinham uma fonte. Era o pensamento europeu.

O resto do mundo era colônia, se não política, certamente mental. Todas as formas de pensar pareciam nascer no Velho Continente. As cidades e os costumes eram importados. Os valores locais, desprezados.

Neste clima de dominação, os povos tiveram suas línguas nativas obrigatoriamente marginalizadas. Falava-se o idioma materno no interior dos lares. Nunca em público.

Este cenário mostrou-se mais alarmante na América espanhola. A colonização hispânica cerceou todos os espaços aos povos indígenas. A língua obrigatória era o espanhol.

Não foi diferente nas margens do Atlântico. O guarani – e outros idiomas – foi proibido já no século XVIII por determinação expressa do Marquês de Pombal.

Perderam-se costumes e vivências, de maneira agressiva e predatória. Algumas regiões, graças aos esforços de poucos abnegados, preservaram línguas locais.

Aí esta o Paraguai falando o melodioso guarani. Lá em cima, na região andina, peruanos e chilenos procuram reaver os valores saqueados.

A América busca reaver seu passado e suas fontes originárias. Vai aos poucos se libertando do pior dos passados coloniais: a servidão mental. Já se pensa com valores locais.

Quando os povos da Bolívia levantam suas vozes é extremamente gratificante. O mesmo se dá com a auto-afirmação dos incas, que voltam a falar seus idiomas históricos.

Os brasileiros não necessitam praticar o esforço para reconquistar o passado. Os nossos povos sofreram uma integração plena. Hoje a língua é única – salvo limitadas exceções – e falada por duzentos milhões de pessoas. Verdadeiro milagre.

Este processo de descolonização se iniciou com o fim da segunda Guerra Mundial, lá no ano de 1945. Teve grande surto na Ásia e na África, onde as antigas colônias libertaram-se e criaram estados nacionais.

As lutas foram intensas e é sempre oportuno recordar as atrocidades cometidas pelos europeus nos combates pela independência dos povos africanos.

Foi deplorável o que praticaram os belgas. Impediram os nativos de ingressar em escolas e, quando a explosão libertária ocorreu, havia em todo o Congo apenas dezessete graduados.

Apenas um exemplo, entre muitos outros. Por que tantas recordações? Realmente assemelha-se a um saudosismo sem motivo. Não é bem assim. As notícias vindas das fontes europeias são preocupantes.

Desejam os líderes europeus impor seu pensamento econômico aos latino-americanos e, a todo o momento, anunciam a chegada do desastre econômico a este continente.

Erram. Muitos governantes da América do Sul se imbuíram dos valores de seus povos e já não aceitam passivamente imposições externas. Deram exemplos de sadia orientação econômica.

Politicamente, os ecos que vêm da Europa são negativos. Quando os gregos, massacrados pelo egoísmo financeiro dos banqueiros externos, desejaram ser ouvidos, foi negado.

Um referendo para captar a vontade popular sobre a crise econômico foi negado pelos europeus. Os gregos foram obrigados a se calar e aceitar a vontade de uns poucos tecnocratas.

Lamentável a posição de personalidades que deveriam ser herdeiros de tradições democráticas e de lutas em busca da participação popular. A colonização dos povos da Europa pelo sistema financeiro internacional tornou-se uma triste realidade.

Os povos latino-americanos em suas atitudes de auto-afirmação mostram-se mais ativos e eficientes que os cansados dirigentes do continente europeu.

É tempo e hora de pensar com nativismo. Acreditar nos valores oriundos de séculos de lutas e sobrevivência. Eles não foram capazes de sufocar a identidade nacional existente neste belo e jovial continente.

 

 

Fonte: Terra

Por: Cláudio Lembo de São Paulo – advogado e professor universitário. Foi vice-governador do Estado de São Paulo de 2003 a março de 2006, quando assumiu como governador.

 

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