Tudo isso por um cargo?

 

Marcelo Tadeu dos Santos

Não se trata de ataques puramente pessoais. Toda a ação não resume sua articulação política apenas em torno deste ou daquele político. A dinâmica toda está girando em torno de mecanismos de desmonte de todo um conjunto de políticas públicas que envolvem uma presença maior do Estado e que estão voltadas para a inclusão em diversas frentes. Portanto, não vamos cair na falsa noção de que tudo se resume a nomes. Nossa obrigação é denunciar que toda essa movimentação conservadora tem um objetivo bem maior, que envolve a desconstrução de um projeto de caráter social democrata (dentro das linhas que foram definidas a social democracia a partir dos anos noventa) e que seu objetivo é a imposição de uma proposta de caráter liberal conservadora, fortemente amparada numa ideia de fortalecimento do mercado e restrição das politicas públicas, principalmente aquelas que estão focadas numa noção de inclusão e regulamentação da relação capital e trabalho.

Dentro deste contexto, uma proposta que caminha de vento em popa é a criminalização e repressão de todo e qualquer movimento que se oponha aos fundamentos do liberal conservadorismo brasileiro que envolvem o projeto que se colocará em marcha após a derrubada do governo Dilma. Na dimensão do projeto em si, os conservadores estão cientes da necessidade de neutralizar todo e qualquer obstáculo que se oponha de forma mais incisiva no âmbito dos espaços públicos. A ideia é inibir as iniciativas de resistência popular, impor dinâmicas de desmobilização e desqualificação dos movimentos sociais sempre visando legitimar o uso indiscriminado dos aparatos repressivos e da formalização de uma postura autoritária diante das organizações que se negam a aceitar tais medidas de caráter impopular.

Governos estaduais que já atuam no sentido de desconstrução de um conjunto de políticas públicas de inclusão e que insistem na afirmação de que o Estado precisa passar por um processo de desmonte mais intenso, estão fortalecendo posturas políticas de afirmação autoritária, reprimindo com vigor todo e qualquer movimento que questione o fundamento de suas ações. Na esteira deste processo de criminalização dos movimentos sociais, encontramos toda uma série de iniciativas voltadas para a construção de uma base jurídica que contribua para a legitimação de práticas políticas cada vez mais autoritárias. Não importa se esse processo se dê através de gigantescas manobras midiáticas, ou através de projetos que visam o silenciamento das esquerdas no contexto escolar e acadêmico (como sugere o projeto escola livre, por exemplo, que quer a restrição de espaços democráticos de discussão e busca se impor através de  uma lógica de negação do diferente, sendo que, o  objetivo de tal projeto é silenciar as esquerdas e instituir a dinâmica do pensamento único liberal conservador tanto nas escola de formação básica como no ensino superior, gerando uma verdadeira caça as bruxas em torno dos professores que insistem em abordar determinadas temáticas como a identidade de gênero ou a religiosidade afro-brasileira). A disposição é ampliar os mecanismos de repressão e restringir os canais de participação democrática dos setores populares, ancorado num apoio  que tem encontrado cada vez seguidores a partir de uma ampliação política dos mecanismos de disseminação do medo.

Vivemos um período em que a sociabilidade está balizada por um discurso que usa e abusa da categoria do medo, gerando posturas de discriminação e marginalização dos segmentos que se tornaram perigosos para a estabilidade da classe média  brasileira, ator fundamental (e histórico já que sempre se fez presente  nos processos de construção e implementação dos regimes ditatoriais e de restrição das liberdades civis e políticas no Brasil)  nesse processo de combate e criminalização dos movimentos sociais.

Nossas relações estão cada vez mais caracterizadas por uma forte onda conservadora que enxerga as políticas públicas de inclusão através de representações absurdas, mas que encontram eco num segmento que nunca se dispôs a trabalhar em torno da construção de direitos, mas sempre esteve em busca de privilégios. É a partir daí que cresce um sentimento cada vez maior em torno de um discurso de ódio que se opõe drasticamente a politicas de combate a exclusão e a marginalização e que entende a resistência as dinâmicas históricas de opressão como parte de um processo de vitimização e que busca deslegitimar e criminalizar toda estrutura de organização política de resistência dos historicamente marginalizados.

Na verdade nossa atual crise política não se trata de um embate por cargos, muito menos de uma cruzada moralista de combate a corrupção, mas de uma grande disputa em torno das formas de organização de projetos políticos para o direcionamento da administração da sociabilidade, onde o que está em jogo é a possibilidade histórica de levar adiante um conjunto de parâmetros que nos conduza para uma sociedade menos desigual, onde o combate ao preconceito e todas as formas de opressão se torne uma grande política de Estado.

 

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