Racismo e Poder

o racismo é um problema dos brancos.

Moore (xxxx, p. xx)

O diálogo que pretendo estabelecer com os interessados no tema: Racismo e poder tem por finalidade desmistificar pensamentos e afirmações superficiais sobre a origem do racismo, a forma como este historicamente vem sendo forjado, e a benevolência do racismo à brasileira, como também afirmar a necessidade de pesquisas e estudos mais aprofundados sobre o tema e suas origens, até então pouco estudada.

Inspirada pelos estudos de um dos grandes especialista no tema, o professor doutor Carlos Moore , que nos presenteia com uma das suas inúmeras publicações Racismo e Sociedade e que nos convida a refletir sobre a origem do racismo, como foi sendo estruturado ao longo da historia da humanidade, quais os interesses e determinantes da construção de uma perspectiva do racismo que afirma a soberania branca.

Destaco nesta publicação o estudo que o autor traz sobre o racismo através dos tempos, revelando a historicidade da questão do racismo, o que nos transporta além do tempo, ou seja, refletir sobre o racismo, como um fenômeno histórico, o que nos leva a pensar sobre o início da humanidade e não reduzi-lo a um conflito de natureza racial. Está além, muito além disso.

Alguns estudos, principalmente no Brasil, que disseminou a ideia de que o racismo é contemporâneo e que está associado à expansão marítima, é falsa. Segundo Moore…

(…) As pessoas supõem que o racismo tenha surgido por causa da escravidão há 400, 500 anos. Esta ideia está enraizada nas mentes e na academia. O racismo tem entre 3 e 4 mil anos de existência. Temos indícios claríssimos de racismo há 1.700 anos A.C.”no mais antigo livro sagrado do hinduísmo. Nele estão descritas cenas de extermínio racial, na qual os” invasores brancos dizem que Deus os mandou com a missão de exterminar o que chamavam de “extirpe” negra”.

Identificar a presença de conflitos raciais na história da humanidade e o caráter histórico do racismo, contribui para aprofundar o entendimento sobre o racismo e suas tensões; sobre em que bases foram fundamentadas as ideias de inferioridade e superioridade entre as raças e a permanente necessidade de invisibilizar e/ou negar o papel civilizatório dos povos negros para toda humanidade. Tudo isso, além de jogar por terra a teoria que os estudiosos sempre afirmaram, são inferiores, porque são diferentes, ou seja, de que houve um estranhamento, quando as raças diferentes se encontraram, portanto foram dominadas, simples assim.

Os estudos têm dado longos passos para revelar a história e o papel civilizatório do povo negro e os seus descendentes. Faz-se necessário compreender esses processos para humanizar os indivíduos, considerando que a humanização passa pelo reconhecimento do outro, sua forma de pensar o mundo, se organizar e de se autodeterminar.

O Brasil é uma nação negra. Os descendentes de africanos no Brasil, segundo o censo, somam aproximadamente 110 milhões de indivíduos, que ao longo dos 518 anos da chegada dos colonizadores nestas terras, tem gerado riqueza e possibilitado o acúmulo de capitais e privilégios para os brancos. Situação naturalizada por uma perspectiva ideológica disseminada no país de que o racismo por aqui foi benevolente. Afirmam ainda que houve uma tolerância dos opressores em relação aos escravizados, tal construção ideológica foi responsável por forjar a ideia de que vivemos em uma “democracia racial” no Brasil, na qual negros e brancos desfrutam das mesmas condições.

Descrevendo a situação acima, apreendida nos livros didáticos e difundida através das novelas, das narrativas literárias, nos contos radiofônicos e de outros tantos veículos de comunicação e discursos cotidianos, identifico que tais afirmações são fruto do olhar dos privilegiados brancos que necessitaram reafirmar tal aberração a fim de livrarem-se da culpa, da desumanidade e da responsabilidade sobre os horrores praticados e o aniquilamento das populações africanas no Brasil. Segundo o professor Abdias do Nascimento, o racismo à brasileira é do…

…tipo muito especial, exclusiva criação luso-brasileira: difuso, evasivo, camuflado, assimétrico, mascarado, porém tão implacável e persistente que está liquidando os homens e mulheres de ascendência africana que conseguiram sobreviver ao massacre praticado no Brasil. Com efeito, essa destruição coletiva tem conseguido se ocultar da observação mundial pelo disfarce de uma ideologia de utopia racial denominada “democracia racial”, cuja técnica e estratégia têm conseguido, em parte, confundir o povo afro-brasileiro, dopando-o, entorpecendo-o interiormente; tal ideologia resulta para o negro num estado de frustração, pois que lhe barra qualquer possibilidade de autoafirmação com integridade, identidade e orgulho.

As interpretações produzidas pelos brancos sobre os escravizados e mantidas no pós-escravidão, intencionavam manter a maioria da populaça brasileira sob sua dominação ideológica, na qual o poder concentrava-se nas mãos de uma minoria. Por exemplo, tudo o que foi divulgado e produzido sobre a temática das relações raciais no Brasil é parte da estratégia de brancos escravistas, racistas e colonizadores em semear ideias e pensamentos que subalternizam, oprimem e criminalizam a população negra.

Desconstruir as ideias difundidas durante cinco séculos exige a releitura da história do Brasil, construir uma nova história, sob o ponto de vista do povo negro, pois faz-se necessário reconhecer o papel civilizatório dos descendentes de africanos e a produção de riqueza no Brasil, como também, as ações de resistência forjadas desde a travessia até as lutas pela libertação, pela construção de estruturas e formas de vida autônomas(quilombos) que nos remetem aos tempos do cativeiro, se contrapondo a ideia de escravizados passivos que aceitaram o regime de servidão.

Vale ressaltar que os levantes e revoltas estavam sintonizados com os acontecimentos ocorridos pelo mundo afora, a exemplo da Revolução Francesa com os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade, que se espalharam por toda região do país e em cada canto do continente e em momentos históricos diferenciados, como nos informa Abdias…

Algumas tentativas de derrocar este sistema estão registradas na história política do nosso país. Uma dessas ocorreu mais ou menos um século antes da chamada abolição da escravatura (1888). Um grupo de negros “livres”, mulatos e brancos formou-se na Bahia em 1798 com um propósito revolucionário. Os principais objetivos do movimento eram: 1. a independência do território da Bahia; 2. um governo republicano; 3. liberdade de comércio e abertura de todos os portos “especialmente para a França”; 4. cada soldado deveria ganhar um soldo de duzentos réis diários; 5. a emancipação dos escravos. Sabe-se que os participantes dessa tentativa independentista estavam fortemente influenciados pelos ideais da Revolução Francesa.

Portanto, não necessitamos mais indagar o porquê do fenômeno da negação e da invisibilidade, pois entendemos que relações de poder e dominação vêm estruturando e definindo o lugar que ocupamos. Então, é necessário aprofundar o processo de estudos e pesquisas a partir do que foi produzido pelos intelectuais e ativistas negros, rumo à emancipação, além de produzir novas coletâneas sobre o pensamento do pan-africanismo e suas experiências na América e África. Organizar, a partir de uma cronologia histórica que as situe temporalmente em cada processo político, revelando as suas contribuições, sua atemporalidade e o refinamento de pensar como atuar estrategicamente, da macro a micro política, necessariamente passará pela geopolítica do poder.

Trago mais uma vez o professor Abdias que nos provoca a pensar e reagir ao explicitar como o Brasil se organizou para alimentar a sua prática racista. No caso brasileiro, a questão racial como contradição primária da estrutura socioeconômica e psicocultural é um fato tão óbvio que deveria dispensar maiores argumentos. Entretanto, de um lado temos somados os reacionários convictos, os liberais e os “progressistas” negando essa realidade concreta com os mesmos argumentos utilizados pela esquerda e por marxistas tradicionais: trata-se de um problema de pobres e ricos, um problema de classes, e não de raça. Um argumento fantasioso, de meia-verdade.


O debate está posto, vamos olhar para o que construímos de positivo, pensar e refletir sobre uma perspectiva de Democracia Plurirracial que enfrente as contradições, equívocos que historicamente excluiu a maioria da população brasileira, os indígenas e negros, estruturando um novo sistema de participação que carregue toda a diversidade desta nação chamada Brasil.

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