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Nesse momento, nós mulheres só temos a perder", afirma Carmem Silva


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O site da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma Política inaugura uma série de entrevistas com entidades que fazem parte do nosso movimento sobre o atual momento político. Nessa semana, a entrevistada foi Carmem Silva, Educadora do SOS Corpo, do Fórum de Mulheres de Pernambuco. Representa o SOS Corpo e a Articulação de Mulheres Brasileiras na Plataforma dos Movimentos Sociais por Reforma do Sistema Político.

Site - Carmem, estamos vivendo um momento político no Brasil de instabilidade daquilo que reconhecemos como democracia representativa, com um avanço de forças conservadoras. O que isso implica de retrocesso e perda de direitos para as mulheres brasileiras, seja no campo político, seja no campo dos direitos humanos e fundamentais?


​Na verdade a instabilidade que vivemos atinge a democracia como um todo e não apenas a democracia representativa. É uma crise de grandes proporções que tem razões econômicas, vide a disputa sobre o controle do pré-sal e ​a fragilização do banco dos BRICS; tem sentidos políticos, se não vejamos a queda-de-braço entre os três poderes da República, e também formas culturais muito fortes, que pode ser exemplificada com o lugar que mídia corporativa, em especial a rede globo está ocupando na crise, mas também pelo crescimento do fenômeno das ruas baseado em ódio de classe, racismo e misogenia.

Num caldo cultural destes, nós mulheres só temos a perder. Perdemos como imagem pública, uma vez que o fato da presidenta ser mulher é usado para chacotas machistas com a objetificação e sexualização do corpo de maneira permanente, numa tentativa de descredibilizá-la a partir do seu pertencimento de sexo. Perdemos em direitos legais, visto que estamos constantemente vendo nossos direitos já conquistados serem moeda de troca no Congresso Nacional, o que reforça o fundamentalismo e o controle do Estado por instituições religiosas, como é o caso do direito ao aborto legal, garantido desde os anos 40. E perdemos do ponto de vista econômico porque somos nós mulheres, em especial as negras e trabalhadoras pobres, quem mais perde com o desemprego, com o fim dos programas de transferência de renda e de acesso a educação (como quer a direita) ou mesmo com a política desenvolvimentista do governo que implanta grandes projetos em detrimentos da situação socioambiental, como é o caso de Belo Monte, e não responde aos crimes ambientais das empresas que estão dentro dos eu projeto, como indica o caso da lama da mineração em Mariana.



Site -  Você analisa uma correlação de fatos no que diz respeito a essa crise política estar acontecendo quando temos uma mulher Presidente do Brasil, ou mesmo as formas de travar o debate político contra a Presidente, vide as forma misógenas que já assistimos nessa conjuntura?


​Não há uma correlação entre a crise e a presidenta ser mulher. Estamos vivendo uma crise econômica mundial com nuances políticas acentuadas. No Brasil a crise parece anunciar o fim de um ciclo​ de retomada do desenvolvimentismo, que ressurgiu com Lula em disputa com o neoliberalismo do governo anterior de FHC. Isso não tem nada a ver com o sexo da presidenta. Mas é fato também que a direita está usando o fato dela ser mulher como elemento de desmoralização, buscando mostrá-la como fraca e incapaz. Nas redes sociais e nas manifestações da direita nas ruas este é um elemento constante, na recente manifestação do dia 13 ficou evidente. Isso não é debate político sobre os rumos do Brasil. É o machismo mais deslavado que sustenta este poder patriarcal no Brasil. Nós poderíamos fazer o debate político sobre os rumos do país, e o movimento feminista certamente teria muitas críticas a fazer aos poderes executivo, legislativo e também ao judiciário e a mídia. Mas não é isso que está ocorrendo. Estamos assistindo o fortalecimento da cultura política do não-debate, do ódio que coloca em risco a existência do contraditório. O nome disso é fascismo.

Site - Na sua opinião, a fragilidade desse momento político é resultado também de uma ampla mudança no sistema político brasileiro?


​Não acho que o momento político é frágil. Pelo contrário, é um momento muito forte de enfrentamento político entre forças contrárias. E, ainda que o fosse, não poderia decorrer de​ uma ampla mudança no sistema político brasileiro, uma vez que esta mudança não existiu. Aliás, é uma necessidade. A crise que estamos vivendo indica exatamente isso: é preciso uma mudança muito ampla no sistema político brasileiro, uma mudança radical capaz de enfrentar a crise de representatividade e de criar condições de democracia direta. Mas isso só vai ocorrer com a ampla mobilização da sociedade nesta direção. Os movimentos sociais que se unem na Frente Brasil Popular e na Frente Povo Sem Medo tem trabalhado nesta direção, mas infelizmente muitos tendem a ter uma atuação pouco autônoma, praticamente subordinada às linhas partidárias neste campo.

 

Nós, da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político e da Articulação de Mulheres Brasileiras temos atuado nesta direção, mas resguardando nossa posição que é enfrentar a direita, exigindo direitos, ou seja, nos manifestamos contra o golpe que está em curso, defendemos a parca democracia que temos, mas não abdicamos do direito de crítica ao governo, tanto ao seu projeto econômico, como à sua forma de atuação que reforça a cultura política hegemônica. Precisamos esticar o olhar para ver além da crise e perceber que a mudança de cultura política neste país exigirá de nós um processo de lutas muito mais longo.