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Funk é a expressão sincera da realidade carioca


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Thaina de Medeiros

Para criminalizar DJ Rennan é necessário mentir sobre o funk e mostrá-lo como grande inimigo da sociedade

Sou morador do Complexo do Alemão, conjunto de favelas na zona norte do Rio de Janeiro. Quando estou fora de lá e conto onde é minha casa, as pessoas sempre têm a mesma reação: perguntam de tiro, de violência e isso incomoda um pouco. Mas não sou nascido no Complexo do Alemão. Sou nascido na Penha, algo que faço questão de falar.

É lindo ver a expressão no rosto das pessoas quando digo “mas sou nascido na Vila Cruzeiro lá na Penha, comunidade ao lado do Complexo do Alemão”. Não preciso explicar muito, eles sabem da Penha. Abrem um sorriso no rosto e respondem: “é onde fica o Baile da Gaiola!”.

Morar em um lugar marcado pela violência como a Penha e o Complexo do Alemão e ser lembrado por uma festa faz toda diferença na vida de favelados. O que o DJ Rennan da Penha criou não foi apenas uma festa, foi um motivo de identidade territorial que coloca a Penha na boca das periferias do Brasil inteiro. Isso é maior do que qualquer coisa que o Estado tenha tentado vincular à imagem da favela.

Para criminalizar DJ Rennan é necessário mentir sobre o funk e mostrá-lo como grande inimigo da sociedade, apresentando o baile funk como um movimento perigoso que precisa ser combatido. Pois o funk tem uma sinceridade que incomoda.

A mesma sinceridade que incomoda é a que cativa a favela. É uma sinceridade insurgente – e, assim, precisa ser sufocada. É lembrar que no país “acima de todos” tem jovem que escuta tiroteio o dia inteiro. O funk mostra que na “cidade maravilhosa” jovens aprendem sobre o Hino Nacional nas escolas e na rua sobre uma glock com alongamento. Ninguém quer falar sobre isso. O funk não esconde isso, como podemos ver na letra poderosa escrita pelo Praga e interpretada pelo Mc Orelha e Menor do Chapa:


Com cinturão de granada e a Glock com alongamento


o tal do R-10 com rajadão de 200


Adesivo, equipamento, tudo personalizado,


vivendo no varejo e morrendo no atacado.


E o crime tá aí, seduzindo a menorzada


vi vários cair, e se levantar do nada.


do túnel pra cá, geral sabe o que acontece


a paz vira negócio aonde a guerra prevalece.

 

Essa letra realmente fala sobre armas. Mas também fala sobre o preço de “viver do varejo” – aqui uma referência ao varejo de drogas. Muitas letras falam sobre a vida no tráfico de drogas e a ostentação que ela pode pagar, mas também falam sobre o preço que essa vida cobra sem esconder nem um pouco a realidade das prisões ou da morte sempre próxima.

“Por que eles não querem que o funk cresça? Porque o funk passa o que eles não querem ouvir”, diz MC Smith em entrevista ao Jesse Andarilho, da Marginow. Smith também foi preso por cantar funk. Na época dividiu cela com os Mcs Max, Frank e Tikão, todos acusados de formação de quadrilha por cantarem uma realidade sincera sobre um Rio de Janeiro de verdade. Falar dessa realidade não é fácil, e mesmo assim esses artistas conseguem fazer isso em versos de menos de 4 minutos, de forma dançante apresentada em festas de rua conhecidas como “bailes funk”. A criminalização do funk não diz respeito apenas ao conteúdo transmitido nas letras, mas também na forma como é apresentado – tão subversiva quanto a própria música.

DJ Rennan da Penha tem o poder de escolher que músicas serão tocadas no Baile da Gaiola. Como DJ ele é também o curador que vai selecionar essas mensagens transmitidas para mais de 5000 pessoas que estão todos os finais de semana no baile. A grande sinceridade do funk não é falar sobre violência, e sim sobre dançar e se divertir. A maioria das músicas tocadas pelo DJ falam sobre dançar. Nada mais político do que dançar dentro de uma política de criminalização da pobreza, de racismo institucional, e de encarceramento em massa.

Por isso, a prisão de DJ Rennan da Penha é uma mensagem para todos os trabalhadores de funk; uma mensagem de que não devem ousar tanto. Essa expressão precisa ficar apenas dentro da favela e não extrapolar suas barreiras, como fez o Baile da Gaiola.

A Penha é um bairro com mais de 300 anos de história. Desde o início do surgimento do bairro acontece anualmente a festa da Penha, onde surgiram vários sambas de sucesso que eram lançados lá. Quando criança, frequentava essa festa, quando ainda era grandiosa, mas foi radicalmente diminuída por “incomodar”. Algumas pessoas acham que nem existe mais. Nos anos 90, surgiu o Baile da Chatuba, conhecido como “Maracanã do funk”, onde eram lançados os funks de sucesso do final dos anos 90 e início de 2000, que foi brutalmente fechado para funcionar uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora).

Mas a Penha não desiste de ser um centro cultural do Rio de Janeiro, e fez surgir o Baile da Gaiola, onde novamente foram lançados os funks cariocas que tocam Brasil inteiro. Três das maiores festas populares do Rio de Janeiro nasceram na Penha. Nessas três festas, saíam as músicas que seriam ouvidas na cidade inteira. Todas elas aconteciam em espaços públicos, sem cobrar ingresso, mas sendo criminalizadas pelo Estado.

O conteúdo das músicas aqui é o que menos importa. O que incomoda é ser festa popular em espaço público que não cobra ingresso e consegue comunicar verdade que nenhum governo quer admitir.

Bezerra da Silva, nos primeiros minutos do documentário “Onde dorme a coruja”, diz: “O morro só é atacado, ele não se defende.” O “Embaixador das favelas”, como era chamado nosso artista, ao fazer tal afirmação, lembra que a favela sempre é criminalizada pelos meios hegemônicos de comunicação, e que os favelados não possuem lugar para expor seu ponto de vista. Dessa forma, ele é o intérprete dessa geração que dá voz aos que não são ouvidos.

A mídia hegemônica conta a sua realidade nos jornais, nós contamos a nossa versão pelo samba ou pelo funk. Se o funk é criminalizado, e são presos os artistas dessa expressão, perdemos um poderoso meio de comunicar o que vivemos, e é exatamente o que querem. DJ Rennan é o maior expoente dessa cultura nos dias atuais; prender esse artista é um recado.

Poderia terminar falando sobre todas as festas em que também são vendidas drogas, e que em festa de rico não existe tal criminalização. Mas muita gente já disse isso. Sabemos que o grande traficante não está na favela, mas nos condomínios. O que é pouco falado é que a favela é sincera com relação à sua própria realidade. Não somos coniventes com o crime organizado, tanto que falamos sobre ele em nossas letras usadas para dançar. Não somos pornográficos, falamos sobre o sexo que ninguém quer falar. Ser conivente é fingir que essas coisas não existem. O crime do funk não é criar um movimento, é expressar uma contra narrativa da cidade maravilhosa.


Por mais sincero que eu possa ser, não vou conseguir transmitir a mesma sinceridade que o funk. Por isso, nada mais justo que encerrar essas linhas com um trecho de um dos funks mais papo reto que já ouvi: “Funk não é modismo, é uma necessidade, é pra calar os gemidos que existem nessa cidade.” (Mc Bob Rum, Rap do Silva).